(Por: André Bonomini)
Um dos grandes homenageados da cerimônia do Hall da Fama do Rock’n Roll deste ano talvez merece bem mais do que um troféu simples e entregue postumamente. Afinal, mesmo passados mais de cinco décadas de seu desaparecimento, o seu nome ainda é sinônimo de televisão, entretenimento na telinha e, sobretudo, musica… muita musica.
Novaiorquino do Harlem, Edward Vincent Sullivan, simplesmente Ed Sullivan, é um sinônimo de história musical de uma geração quando seu nome é dito em qualquer roda de memória da canção internacional. Pioneiro no entretenimento televisivo, sua atração dominical – o “The Ed Sullivan Show” – atravessou períodos musicais marcantes, trafegou por vários estilos, quebrou barreiras e marcou momentos históricos nos 23 anos que esteve no ar (de 1948 a 1971).
Saído dos ringues de boxe, Sullivan começou sua trajetória no jornalismo como cronista esportivo, passando as notícias do teatro quando a titular da editoria deixou a função no jornal que trabalhava. Era o caminho certo para o cidadão moldado nos socos de boxeadores e que, mesmo com a presença imponente, mostrasse sensibilidade apurada no ramo do entretenimento.

A oportunidade maior viria em 1948, quando foi chamado para apresentar um programa de variedades na então jovem CBS, genese do que seria enfim o “The Ed Sullivan Show” e a porta de entrada para uma cultura pop que nascia a passos largos no pós-guerra. A fama de “fabricante de estrelas” nascia de sua popularidade e tino para apresentar e, literalmente, lançar ao estrelato nomes que, anos depois, seriam as referencias de seus estilos musicais.
Foi assim com Elvis Presley, que mesmo desdenhado por Sullivan no inicio, não pode ser ignorado pelo apresentador quando o fenômeno de “The Pelvis” tornou-se incontrolável. A primeira aparição do garoto de Memphis foi em 1956, registrando os primeiros (e frenquentes) picos de audiencia da atração.
Aparecer diante das câmeras da CBS e ser apresentado pelo ex-pugilista tornou-se sinônimo de sucesso certo para qualquer cantor, cantora ou banda. Foi assim que os Beatles, no início da chamada “invasão britânica“, encontraram no palco de Ed Sullivan terreno para fincar sua música nos EUA sem mesmo ter um single de estréia no pais. A primeira passagem, em 1963, foi uma das maiores audiências da TV em todos os tempos, seguindo-se outras 12 aparições sempre concorridas e marcadas pelo grito histérico das fãs na platéia.

E a lista de nomes que desfilaram seu talento naquele lugar é tão rica quanto histórica: Além de Elvis e Beatles, lá estiveram (uma ou mais vezes) Cher, Johnny Cash, Carpenters, Rolling Stones, The Doors, Bee Gees e muitos outros, seja da música, do cinema ou da comédia. Em se falando de Doors em especial, a passagem de Jim Morrison pelo programa foi marcada pela polêmica, quando a negativa de alteração da letra de “Light My Fire” para a TV causou o banimento definitivo da banda, reflexo da verve ainda conservadora de Sullivan na condução da atração em alguns momentos.
Já o palco do showman também foi o ponto de partida para muitos grupos do Soul e R&B que, anos depois, seriam as referencias do estilo musical. Era uma quebra de tabu e resistência de uma televisão dos EUA ainda fechada a artistas negros, sobretudo em tempos fortemente movidos pelos protestos pelos direitos civis. Diana Ross, junto das Supremes, era uma das mais frequentes convidadas de Sullivan, assim como os Temptations, Four Tops, Stevie Wonder, James Brown e, claro, o Jackson Five, que encontrou ali a sua primeira grande vitrine.
E o Brasil também teve seus momentos diante das câmeras de Ed Sullivan. Pela mão dele, Carmen Miranda, Sergio Mendes e outros tantos desfilaram o samba, a MPB e a Bossa Nova a um público que pedia também um som além do Pop/Rock de toda semana. No entanto, a passagem mais marcante do Brasil por lá teve nome, sobrenome e um momento único: Leny Eversong.
A cantora que, há algum tempo, fazia sucesso no país com interpretações latinas e brasileiras em puro inglês e dona de uma voz possante e marcante, foi o “tapa-buraco” precioso de Ed Sullivan quando, em uma noite de 1957, Elvis Presley (em outra de suas aparições por lá) tinha sido impedido judicialmente de cantar por conta dos seus “escandalosos movimentos de quadril”.

Enquanto a briga por uma autorização especial fosse concedida, era Leny que garantia o show daquele dia. E num breve momento de conversa de bastidores, a brasileira trocava curiosidades e resenhava com Elvis e o próprio Sullivan. O Rei do Rock não escondeu a boa impressão que teve pela voz e intensidade da cantora e ainda sugeriu que dividissem uma canção juntos, o que acabou não acontecendo ao final.
O The Ed Sullivan Show continuou escrevendo e dando imagem a história da música até ser retirado do ar em 1971, quando Ed começava a lutar contra um câncer de esôfago que o levaria a morte três anos depois, deixando registrados momentos únicos do entretenimento televisivo mundial, e não só eles como também momentos musicais inesquecíveis de nomes que, hoje, estão nos livros, nos ouvidos e na mente dos apaixonados pelo som.
E aqui embaixo, você revê algumas das mais marcantes passagens do Ed Sullivan Show em todos os tempos, numa seleção especial da equipe de redação do site da União FM para você viajar no tempo não apenas em som, mas também em imagem e no tino desta lenda da TV ao qual a música bate palmas até hoje.




